a goiaba

Sunday, December 24, 2006

Crescendo

Sabe quando você chora baixinho para que ninguém mais escute? Você segura com força algo dentro de você para ninguém saber. E depois, quando acaba, você expele uma baforada de ar. Aquele ar é o grito que você sufoca, você luta contra ele e quando ele desiste se torna aquela baforada de ar. É deprimente chorar para que ninguém saiba, quando se chora, desde bebê, a intenção é que alguém veja que há algo errado e vá te ajudar. Ninguém viria me ajudar mesmo.
Quando eu chorei e gritei minha mãe disse que eu devia parar de ser rídiculo. "Você está sendo ridículo."
Os meus anos dourados não foram dourados. Foi angustiante. Havia em mim algo que incomodava quem estava por perto. Não porque eu podia ser diferente, não era, era porque eu era aquele ser indefinido e inconstante. Eu era pressionado sempre. Estava sempre alerta para coisas terríveis que pudessem vir a acontecer.
Meu pai, ao contrário do que muitos pais fazem, não me expulsou de casa. Ele disse, "Enquanto você não se tornar um homem de verdade daqui você não sai, você fica e vai trabalhar comigo." Homem de verdade? Ele estava certo, eu precisa me tornar um homem de verdade, eu era muito infantil embora sempre tivesse sido homem. Um homem criança. Meu pai queria me consertar, eu precisava apenas crescer.

Thursday, September 14, 2006

Os sentimentos familiares

Aquela noite, dentro do avião, eu sentia aquele leve enjôo que eu sempre tinha quando mais novo. Aquela mistura de medo e ansiedade que se tornava um líquido pastoso dentro de mim e subia à boca toda vez que me julgavam, me questionavam, me indagavam algo sobre mim, sobre minha vida ou sobre qualquer assunto que, no mínimo tangenciasse toda aquela verdade que eu queria esconder.
E naquela noite, eu só podia pensar que veria meu pai de novo. Meu pai de quem eu fugi. De quem eu nunca fui amigo. Não existia entre meu pai e eu nenhuma conexão, não éramos capazes de manter uma conversa. Nunca tivemos grandes brigas, como as que eu tive com a minha mãe, talvez porque nunca tivemos nenhum contato. E será que agora teria que haver contato?
O líquido pastoso me subiu a boca de novo. Havia aquele tipo de assunto que tangenciava a nós dois. Havia minha mãe, o elo que ligava tudo e tangenciava uma porção mais de outros assuntos dos quais eu me poupei a vida toda.
Por muito tempo eu me senti tão fora daquele mundo. Tão fora da família e de suas relações. Não era mais família há anos. E agora todos os desprezíveis sentimentos estavam de volta.

Sunday, August 20, 2006

Normal

- O que você quer Alex? Hein? Eu não consigo entender. Por que você faz isso? O que você quer?
Eu nunca disse para a minha mãe que eu sou gay. Ela não entendia as coisas que eu fazia. Ou quem sabe entendia. Entendia tudo. Sabia o porque. Mas não podia ver.
- Não é normal o que você faz, Alex – ela dizia.
Eu não sou normal. Eu recebo uma carta do meu pai dizendo que minha mãe morreu. E só consigo pensar que ela me deixava muito deprimido com tudo o que eu sentia, gritando comigo e me pressionando dia a dia.Meu pai nunca me disse nada. Ele brigava com a minha mãe só. Ele dizia que ela me protegeu demais, não deixou que eu crescesse. Essa idéia me agradava lá no fundo. Não crescer era tudo o que eu queria naqueles dias. Voltar no tempo. Fazer tudo diferente. Achar o lugar do erro. Consertá-lo. E me tornar normal. Para que eu não tivesse que fugir da minha família como eu fugi. Para que eu tivesse aproveitado a minha adolescência como os outros. Para que quando minha mãe estivesse morta eu me lembrasse de como era bom estar com ela.

Saturday, August 12, 2006

A verdade

Não se pode fugir da verdade. Nunca somos capazes. E ninguém havia me dito isso. Mais cedo ou mais tarde ela te pega de jeito e você tem de enfrentá-la. Às vezes a verdade nos machuca quando vem de outras pessoas. Como descobre a esposa que encontra seu marido com outra. Ou como o amigo que é traído pelo amigo infiel. A verdade dos outros nos machuca. Mas o pior é quando nos machucamos com nós mesmos. Quando sentimos vergonha ou medo de sermos verdadeiros. Quando achamos que nós, nós em quem devíamos confiar mais, não somos dignos da verdade, estamos errados.
Eu sou assim. Eu não sou confiável a mim mesmo. Eu tento a cada dia que passa me destruir um pouquinho a mais. Eu não me acho digno. Porque eu estou errado. Me ensinaram assim. Eu não ouso questionar a quem me ensinou, eles me ensinaram, eles sabem mais, eles entendem mais. E quando minha mãe morreu não ousei desafiar a sabedoria dela. Sou e sempre fui errado.